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SINTO MUITO, É UMA CARTA



São José dos Campos, em algum dia do ano de 2019.



Olá,

Eu não vou perguntar como você está, afinal, isso não importa no momento. Não agora.

Me perdoe por estar lhe escrevendo apenas agora. Mas perdoe mais ainda por eu estar lhe escrevendo. 

Apesar de não saber como começar esta carta, eu já a iniciei e, talvez agora, eu não saiba muito bem como continuá-la, sendo assim, me perdoe por isso também. Mas eu precisava dizer antes que as palavras voassem longe demais e não alcançassem nenhuma de nós.

Eu não quero encontrar culpados e muito menos nomear vítimas, apenas quero que esta carta consiga dizer tudo - ou quase - o que não foi dito e que você a leia com o coração aberto o suficiente para entender, ou ao menos tentar fazê-lo.

Mesmo assim, eu sinto muito por esta carta e por tudo e, se eu pudesse a intitular esse seria o nome, "sinto muito".

Sinto muito, pois apesar de todo o agora, os momentos pretéritos não podem ser eliminados da nossa mente, pelo menos não da minha. E, eu sou grata por todos eles, e do fundo do meu coração eu os carrego acreditando que foram verdadeiros - apenas não foram eternos.

Sinto muito, pois meses ou até anos já se passaram. Você notou? Eu sim. Eu não contei o tempo, apesar de saber o quanto está durando. Apenas contei errado. Contei todas as vezes que precisei de você e, você não esteve aqui. Contei todas as vezes que me vi sozinha quando você podia ter ficado. Contei todas as vezes que me senti esquecida quando me senti ignorada. Contei todas as vezes que a promessa foi quebrada.

Me perguntei em todo esse tempo o que eu não fiz para que você deixasse essa amizade de lado, talvez não porquê ela não fosse importante para você, mas sim porque talvez não fosse a sua prioridade - mas um dia foi?

Eu tentei na medida do que me foi possível e até onde o meu orgulho me permitiu ir. Eu até poderia ter perseverado mais, porém é horrível procurar e não encontrar e mais horrível ainda é não ser procurada. Talvez você se sinta da mesma forma ou talvez não sinta nada. Mas eu sinto muito.

Sinto muito, pois eu não sou mais a mesma pessoa e sei também que nem você é. Não dá para ignorar isso. E pode até ser que por isso o distanciamento foi desprezado, e a vida seguiu seu rumo, no nosso caso, em direções diferentes.

Sinto muito, pois aprendi da pior forma que equilíbrio também deve fazer parte dos relacionamentos. O equilíbrio do estar perto e do estar longe. O equilíbrio do dar e do receber. O equilíbrio de amar e do perdoar. Equilíbrio.

Sinto muito, pois tudo isso nunca foi o que imaginei para nenhuma de nós. É estranho aceitar que hoje somos meras estranhas uma para a outra.

Sinto muito, pois a distancia nunca nos impediu e mesmo assim nossas vidas continuaram, se reorganizaram, e naturalmente tudo mudou. E aceitar que uma amizade não existe mais faz apenas parte do amadurecimento. E ele é necessário.

A dor da ausência poderá durar por toda a vida talvez, apenas devemos aprender a lidar com ela.

Sinto muito, pois daqui onde estou eu posso ver que não é culpa de ninguém. As coisas mudam. A vida evolui e, o que antes se enquadrava perfeitamente já não se encaixa mais.

Sinto muito, pois na maioria das vezes o que destruiu um templo é mais lembrado do que o que o edificou.

Sinto muito. Mas a verdade é que não queria sentir nada.

Com amor.

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