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O Puerpério da Amizade


A maternidade faz uma "limpeza" natural nas nossas relações. É normal e vai acontecer. Aconteceu comigo.

Algumas pessoas não suportam o nosso caos e outras estão tão mergulhadas em seus próprios caos que não conseguem nos alcançar ou nos ajudar. E o que acontece? Em ambos os casos, se afastam um do outro.

Quando me tornei mãe, pensei que perderia amizades porque me tornaria menos interessante ou menos disponível. Eu sabia que isso aconteceria, cedo ou tarde. E sabia que essas pessoas seriam, em grande chances, as que não tinham filhos. Afinal, é até compreensível que pessoas que não tenham filhos, não consigam acompanhar ou até querer testemunhar o caos que a maternidade pode gerar na rotina e na vida de uma mulher.

E eu me preparei para esse momento. O momento em que a maternidade redesenha o nosso "círculo social", gerando um afastamento natural de amigos sem filhos e o fortalecimento de laços com quem vive momento similar.

No entanto, fui pega de surpresa quando o afastamento veio de pessoas do mesmo lado, as que já tinham filhos. E em um momento de extrema vulnerabilidade eu percebi que nem todo mundo sabe, ou quer, ou pode, ser rede de apoio ou um ombro amigo. Algumas pessoas travam diante da mudança de vida do outro.

Em um dado momento da minha vida, quando eu ainda não era mãe, procurei de alguma forma ser presente - ou mostrar importância - na vida dos amigos que estavam passando pela mudança que é a chegada de um filho. Mas acho que fiz tudo errado. E de certo modo, não acho que tenha sido tão boa no que fiz - olha o que colhi. Contudo, eu tentei dar o melhor que eu tinha com o pouco que sabia sobre esse momento na vida de alguém.

Esse é um momento delicado na vida. A maternidade. Um momento lindo mas acompanhado de mudanças gigantescas. E nessa fase conta muito saber com quem podemos contar, nem que seja apenas para conversar.

Acredito que para os meus antigos amigos eu realmente tenha me tornado menos interessante e muito indisponível. Hoje, por exemplo, não tenho investido em uma carreira; não recebo um bom salário (monetariamente, nenhum na verdade) e, quase não tenho tempo, ou vontade, ou disposição para acompanhar as atualidades do mundo à fora e me manter antenada para uma conversa moderna. Também não tenho tido tempo para sair e participar de encontros aleatórios a qualquer hora ou lugar; e nem tempo de ficar no celular mandando mensagem ou ligando para "X" ou "Y". Realmente, assim, soo muito desinteressante e indisponível mesmo.

A realidade é que não sou indisponível, só estou indisposta pelo cansaço, pela rotina. Não sou menos interessante, apenas estou vivendo uma vida comum e, para muitos, ordinária demais para ser compartilhada.

Escrevo essas palavras, mas acredito que ainda não me curei das perdas que tive, da ausência dos amigos que escolheram sair de cena quando eu tinha me tornado protagonista. 

Sinto muito pela partida de cada um que foi. Mas sinto mais ainda por eles não terem querido permanecer e conhecer a minha nova versão; sinto muito mais, por não conhecerem a menininha por trás de toda essa transformação, minha filha, que luto a cada dia para aprender a criar e a educar contra todos os padrões desse mundo.

Ainda a pouco eu tentei resolver minhas pendências. Me reaproximar, procurar saber onde errei e se tive eu culpa de algo. Para me redimir, me desculpar. Porque hoje me sinto mais preparada para tal. Sem remorços ou mágoas. Procurei apenas porque sabia bem que se eu não desse o passo, jamais o outro lado daria. E digo que, em um fui bem-sucedida, em outro, apenas vencida. É aquilo que sempre ouvi do meu esposo: "o que um não quer, dois não fazem". E isso vale para tudo, ate para amizades.

Ah, o puerpério da amizade! Quem me dera eu tivesse passado apenas pelo outro.

Com amor (ainda e sempre) da minha parte,

Danielle Marins

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